Viagens de negócios: Um progresso lento entre avanços e retrocessos

EM RESUMO

  • Cinco anos após a pandemia, a viagem de negócios se reconstrói sobre seus fundamentos: digitalização, personalização, flexibilidade e RSE.
  • Distribuição transformada por NDC e multisourcing, mas o tráfego aéreo ainda está abaixo de 2019; promessas do elétrico ainda incompletas.
  • Principal obstáculo: o preço domina, especialmente nas licitações públicas, em detrimento do valor do serviço.
  • Adoção desigual dos colaboradores: baixo uso do elétrico, retorno a hábitos pré-Covid; tensões entre finanças, RSE, compras e viajantes.
  • Aceleradores: IA (até 30 % de produtividade), aumento da eletromobilidade e de estações em hotelaria.
  • Marco regulatório: faturamento eletrônico em 2026, reporting extra-financeiro em 2027.
  • Canais: progressão da adoção online, offline humano como diferencial.
  • Desafio: superar o custo único para uma criação de valor global do deslocamento.

A viagem de negócios avança, mas de forma cautelosa. Reconstruída sobre seus fundamentos após a crise, acumula avanços tangíveis — digitalização, personalização, fortalecimento da RSE, crescimento do NDC e do multisourcing — e retrocessos persistentes, entre pressões orçamentárias, inércias culturais e adoção incompleta das novas mobilidades. Durante uma mesa redonda na IFTM Top Resa 2025, os atores traçaram um quadro contrastante: tráfego aéreo ainda inferior a 2019, promessas do elétrico em parte adiadas, mas aceleração esperada por meio da IA, do faturamento eletrônico e do reporting extra-financeiro. No cerne do debate, um desafio de maturidade: reposicionar o deslocamento em uma lógica de criação de valor, além do preço.

Após a crise, um setor reconstruído sobre seus fundamentos

A ruptura anunciada durante a crise sanitária — menos deslocamentos, mais virtual — se transformou em uma recomposição mais sutil. Cinco anos depois, o business travel se reorganizou, consolidando suas bases: ferramentas modernizadas, trajetos de viajantes mais flexíveis, serviços mais personalizados e integração sistemática dos critérios RSE na relação cliente-fornecedor. Durante a mesa redonda moderada por Marie Allantaz na IFTM Top Resa 2025, líderes e tecnólogos convergiram: embora o setor tenha recuperado um “espírito de renascimento”, o tráfego aéreo ainda está abaixo de 2019 e a transição para a eletromobilidade nos usos profissionais permanece desigual, apesar de tarifas cada vez mais alinhadas ao setor térmico. Vários estudos também destacam um rebote esperado para 2026, mas ainda dependente de arbitramentos econômicos e políticas de deslocamento.

Distribuição: NDC e multisourcing mudam a relação

A cadeia de distribuição se transformou profundamente. O crescimento do NDC e do multisourcing redesenha o acesso ao conteúdo aéreo e hoteleiro, favorecendo uma oferta mais rica, dinâmica, e políticas de preços e serviços mais segmentadas. Essa mutação, impulsionada pelas plataformas tecnológicas e pelos TMCs, acompanha a emergência de novas inovações no negócio de viagens: dados em tempo real, motores de otimização, integração de critérios CO₂ e regras de conformidade no cerne do processo de reservas.

Discursos transformados, práticas que resistem

As grandes tendências parecem indiscutíveis — RSE, digital, IA, multimodalidade — mas sua implementação ainda enfrenta realidades muito concretas. Em um contexto de restrições, o preço continua a ser o critério determinante, especialmente durante as licitações predominantemente tarifárias que podem ofuscar o valor do serviço. O setor privado busca mais um equilíbrio entre custos, qualidade tecnológica e suporte humano, mas essa ambição é confrontada pelo curto-prazismo orçamentário e pela necessidade de demonstrar ganhos rápidos.

Adoção pelos colaboradores: um obstáculo subestimado

O sucesso de uma política de deslocamentos não depende apenas das ferramentas. Em termos de uso, o elétrico continua insuficientemente adotado nos aluguéis apesar de uma competitividade crescente, as reuniões presenciais estão recuperando espaço para selar decisões comerciais, e reflexos anteriores à crise persistem em trajetos curtos. Todos esses são indícios de que a transformação requer pedagogia, incentivos e uma demonstração clara dos benefícios para o viajante. Nesse contexto, relembrar o valor dos encontros profissionais e seu impacto no desempenho comercial ajuda a orientar os arbitramentos.

Arbitramentos complexos entre partes interessadas

As finanças privilegiam a conformidade e o controle de custos, a RSE busca a redução da pegada, as compras negociam o preço, enquanto os viajantes esperam conforto e fluidez. Essa pluralidade de objetivos cria um jogo de equilibrar delicado, às vezes retardando decisões e a difusão das boas práticas. Períodos de tensão — marcados por perdas nas vendas em certos segmentos — ainda intensificam a atenção às economias imediatas, em detrimento de uma visão de longo prazo.

O papel crescente do digital e da IA

As promessas da IA se tornam alavancas concretas de eficiência. Os atores tecnológicos mencionam ganhos de até 30 % de produtividade graças à automação de tarefas de pesquisa, controle e atendimento ao cliente. No futuro, motores de apoio à decisão otimizarão em tempo real os compromissos entre preço, CO₂, conforto e segurança, aprimorando a personalização. Paralelamente, a taxa de adoção online continua a crescer, enquanto a qualidade do offline — relacionamento humano, aconselhamento especializado, suporte em situações excepcionais — se torna francamente diferenciada. Nesse movimento, as agências de viagem estão reavaliando seu papel, entre orquestração tecnológica e serviço premium.

Online vs offline: em direção a uma hibridação exigente

As empresas privilegiam trajetos fluidos e autoatendimento para o padrão, enquanto exigem suporte especializado para casos sensíveis: políticas complexas, riscos de país, redirecionamentos. Essa hibridação exige plataformas abertas, uma governança de dados sólida e KPIs que medem tanto a satisfação do viajante quanto a pegada de carbono e o desempenho financeiro.

Transição energética e novas mobilidades

A crescente presença do elétrico nas frotas de empresas e a demanda por infraestruturas — estações em hotelaria, estacionamentos equipados — constituem uma grande tarefa. A adoção, mais lenta do que o esperado, deve acelerar sob a combinação de normas, pressão regulatória e um TCO melhor controlado. As políticas de multimodalidade — priorizando o ferroviário sobre o curto-curso, otimizando os trajetos urbanos, acomodações melhor localizadas — estão amadurecendo, mas necessitam de ferramentas de agregação robustas e incentivos claros para os viajantes.

Um marco regulatório que acelera a transformação

A partir de 2026, o faturamento eletrônico padronizará e tornará mais seguros os fluxos de dados, simplificará a reconciliação contábil e melhorará a visibilidade orçamentária. Esperado para 2027, o reporting extra-financeiro tornará mais transparentes os indicadores ESG relacionados aos deslocamentos: CO₂ emitidos, eficácia dos planos de sobriedade, qualidade dos dados. Esses marcos regulatórios exigem a revisão dos processos, da governança dos sistemas e da colaboração com os fornecedores, do aéreo ao alojamento.

Rumo a uma criação de valor global em vez de uma lógica de custo

Além de um “novo paradigma” proclamado, o período atual se assemelha a uma transição exigente. As discussões do workshop da AFTM convidam a reforçar a maturidade estratégica: avaliar a viagem de negócios como um investimento a serviço de vendas, inovação, coesão e marca empregadora. O desafio não é apenas reduzir, mas otimizar: escolher os deslocamentos que criam mais valor, orquestrar uma experiência responsável e eficiente, e documentar os resultados com indicadores compartilhados por todas as partes interessadas.

Aventurier Globetrotteur
Aventurier Globetrotteur
Artigos: 71873